quarta-feira, 22 de junho de 2011

O real, o virtual e a natureza das interacções online

Segundo Souza (2001)  e citando Levy (1996) a noção de virtual na sua acepção anglo-saxónica pode definir-se como: “Algo que embora não exista estritamente, existe em efeito” ou ainda “Algo que é tão próximo da verdade que para a maioria dos propósitos pode ser considerado como tal”, entre outras. Ainda segundo os mesmos, o real e o virtual não são conceitos opostos, sendo o virtual considerado como algo que existe como possibilidade de se tornar real, “… é um real fantasmático, latente. O possível é exactamente como o real, só lhe falta a existência…” Levy (1996). No entanto isto implicaria uma concretização no tempo, mas se já existe, não é algo que apenas se projecta no futuro. Então o virtual seria uma existência paralela e imaginada que não obedece às leis do aqui e agora e da noção de tempo como nós o conhecemos. 
No seu texto de 2001, Sayeg mostra-nos as possíveis origens do virtual, como forma abstracta de compreensão e integração de uma realidade que não o sendo, possui todas as características inerentes, de algo palpável e concreto. A autora refere-nos as origens e evolução da escrita e da leitura que até á Idade Média foram essencialmente, processos de divulgação dos textos sagrados.
A Revolução Industrial provoca uma grande mudança organizacional da sociedade, derivada da urbanização e da industrialização. Segundo a autora e citando Tuman (1992) estes factores em conjunto com a criação da tecnologia da impressão de textos levam a uma transformação da experiência de ler e escrever. Este é agora um acto público, abrangente e não necessariamente apenas, ferramenta de estudos eruditos. Por outro lado, tendo como agentes a classe média (nascida da Revolução Industrial) iniciou-se um movimento, crescente, de agrado á leitura de romances e novelas, e de apreço pela intimidade dos seus detalhes. Esta leitura mostra uma primeira abordagem ao conceito de virtual, já que as personagens sendo ficção possuem características humanas, tanto físicas como psicológicas e são detentoras de vida própria. A promoção deste tipo de leitura intimista e subjectiva, mediada pela imaginação ( Sayeg 2001)levará á criação de uma forma diferente de vivenciar a  introspecção, pela criação das personagens que servirão de modelos para a existência de pessoas “reais”.
Devido ao encorajamento de criação de mundos anímicos, assistiu-se a uma tendência individual de registo em diários, das experiências vividas ou imaginadas pelo seu detentor. Estes diários eram de carácter privado, e se partilhados, apenas o seriam, em pequenos ou médios grupos de indivíduos.
A partir da Revolução Tecnológica e da criação do computador como meio de expressão individual e das redes de comunicação cibernéticas, começaram a observar-se  grandes transformações ao nível das relações humanas assim como da noção de público e privado. Ou seja, se até ali os dramas e pensamentos individuais eram privados e circunscritos a meios restritos, hoje assiste-se, a paradoxos comunicacionais como o diário virtual. Nesta forma de comunicar, as pessoas transcrevem informações de carácter privado e publicam na Internet. Pelo facto, destas publicações serem geralmente feitas em casa ou em locais privados dá-lhes uma falsa noção de privacidade, uma vez que após serem publicadas, estas podem ser acedidas por qualquer pessoa, em qualquer parte do globo…perdendo assim toda sua privacidade. Sayeg (2001) refere também que até a noção de distância geográfica, se modifica neste contexto. O conceito de público e privado sofreu assim transformações na sua essência. O que antes era o privado, hoje é “normal” ser público, o que me leva a uma questão:
 E a identidade do ser humano, o auto conceito e as suas formas de ver o mundo? Como podem ter sofrido transformações tão abismais em tão pouco tempo?…
 É que na verdade, assiste-se a uma partilha, á escala planetária, dos mundos internos de cada indivíduo. Podemos ter acesso às suas construções de mundos virtuais e de personagens fictícias que interagem connosco como se de pessoas “reais” se tratassem, já que possuem todas as características humanas, sentimentos, emoções e dramas de vivência. Os relacionamentos online são, muitas vezes, vividos na interacção entre estes dois mundos, chegando a um ponto em que já não há realmente uma fronteira delineadora entre o que é real e o que é virtual.
Para concluir, poderíamos assim afirmar que a informação e as relações online são per se de natureza ambígua. Ou seja nos dias de hoje é praticamente impossível diferenciar entre o real e o virtual, entre factos e conjecturas, entre a realidade “nua e crua” e a magia da fantasia.
 Se isso é positivo ou negativo, um dia saberemos…

Referências Bibliográficas:
Ashby, W. (1970) Introdução à cibernética, São Paulo, Perspectiva.
Bolter, J. (1991) Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing, Hillsdale, New Jersey, Lawrence Earlbaum Associates.
Castells, M.  (1998) The Rise of the Network Society (Vol. 1 da trilogia The Information Age: Economy, Society and Culture), USA/UK, Blackwell Publishers (publicado inicialmente em 1996).
Castells, M.  (1997) The Power of Identity (vol. 2 da trilogia) USA/UK, Blackwell Publishers.
Castells, M.  (1998)  The End of the Millenium (vol. 3 da trilogia) USA/UK, Blackwell Publishers.
Edwards, P. (1996) The Closed World - Computers and the Politics of Discourse in Cold War America, Cambridge, Mass., and London, England, The MIT Press.
Hayles, N. (1998) "Posthuman" email para a lista de discussão do "Critical Forum <artistic practice in the network> <eyebeam> < blast> " do Atelier Eyebeam (1 Feb to 30 April 1998) eyebeam@list.thing.net [http://www.thing.net/eyebeam/msg00041.html] 09 Feb 1998 Turkle,S. (1997). A Vida no Écrã. A identidade na era da Internet Lisboa:Relógio d'Água.
Lévy,P. (2001) - O que é o Virtual? Lisboa: Quarteto Editora.
Sayeg,M.(2001). Interacção no Cyberespaço: Real ou Virtual? RevistaTesseract, 5, Disponível em http://tesseract.sites.uol.com.br/cyberspace.htm [acedido em 02-04-2011].
Santaella, L. (1996), Cultura das mídias, São Paulo, Experimento.
Stone, A. (1996) The War of Desire and Technology at the Close of the Mechanical Age, Cambridge, Mass., and London, England, The MIT Press.
Searle, J. (1995) The Construction of Social Reality, New York, Free Press. Lévy,P. (2001) - O que é o Virtual? Lisboa: Quarteto Editora.
Souza, R. (Abril, 2001). O que é, realmente, o virtual? Revista da Informação e Tecnologia. Disponível em http://www.ccuec.unicamp.br/revista/infotec/artigos/renato.html [acedido em 02-04-2011].
Tuman, M. (1992) WordPerfect: Literacy in the Computer Age University of Pittsburgh Press

Maria Miguel
 Ualg a40179


                                                                                                                                                         

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